quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

quem avisa amigo é


"... Você quer, de fato, que este ano seja um tempo de profunda renovação da sua vida? Deseja que isso repercuta bem para as pessoas ao seu redor e para todo o universo? Então, refaça neste início de ano novo o compromisso de, a cada dia, consagrar um tempo, por mínimo que seja, de gratuidade e interioridade para renovar um verdadeiro e profundo diálogo consigo mesmo/a.
Ao mesmo tempo, comprometa-se em ser, cada vez mais, uma pessoa de diálogo com os outros, inclusive com as pessoas que pensam e agem a partir de valores que você não aprova. O diálogo mais fecundo é justamente com os que pensam e atuam diferentemente de nós. Além disso, procure de todos os modos intensificar a comunhão solidária com a terra, a água e todos os seres vivos do planeta. Faça isso e a bênção deste ano novo se realizará em você e, a partir de você, no mundo. Você constatará, então, como se tornarão verdadeiras e fecundas em sua vida, assim como para os que convivem com você, as palavras da antiga bênção irlandesa: "O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas onde moras. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão".

Marcelo Barros  - monge beneditino e escritor

parlamentar... para lamentar

Fiel leitor do jornalista Eliomar de Lima na coluna diária do Jornal O POVO e no blog pessoal, acabei encontrando esta charge de sua aotoria. Confesso que meu gosto é pelas pizzas de verdade. Italianas, ainda melhor.

E daí? Daí que o ano de 2010, apesar de muitos entraves ainda mal resolvidos, passará à história como “Ano da Ficha Limpa”. Bem que poderíamos fazer de 2011 o ano da “ÉTICA NO PARLAMENTO”.  O sábio bispo emérito Dom Edmilson Cruz foi perspicaz naquele trocadilho:  "Não é Parlamentar ... mas... Para Lamentar"! Para lamentar é também tanto povo indignado mas de braços cruzados. Quem mais se candidata além de eu e você?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

entre propósitos e desafios

Tocando em Frente
 Almir Sater e Renato Teixeira

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz...

De minha parte eu vou tentar tocar em frente assim...e você? Sejamos felizes!








dicas para o ano novo

“Se teus projetos têm prazo de um ano,
semeia trigo.
Se teus projetos têm prazo de dez anos,
planta árvores frutíferas.
Se teus projetos têm prazo de um século,
então educa o povo.
Porque, semeando trigo, terás uma colheita.
Plantando árvores frutíferas, obterás cem colheitas.
Mas, educando o povo, colherás mais de cem vezes”.


Kuan Tseu, poeta chinês sec. VII

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Bispo recusa homenagem do Senado em protesto contra aumento de salários

Dom Manuel Edmilson da Cruz foi à tribuna e afirmou que o reajuste dos vencimentos de parlamentares, ministros e presidente é um "atentado"

Gabriel Castro

Os senadores podiam ter encerrado o ano sem essa. A repercussão negativa do aumento concedido pelos parlamentares em benefício próprio e a cargos do Executivo causou um constrangimento nesta terça-feira, no Senado Federal. O bispo emérito de Limoeiro do Norte (CE), dom Manuel Edmilson da Cruz, seria agraciado com a Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, premiação entregue pela primeira vez. Eram cinco os homenageados. Dom Manuel compareceu ao parlamento, subiu à tribuna e... recusou a comenda.

O religioso disse que a decisão dos parlamentares envergonharia Dom Hélder Câmara: “Só me resta uma atitude: recusá-la. Ela é um atentado. Uma afronta ao povo brasileiro, ao contribuinte para o bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”, declarou. O prêmio recusado por Dom Manuel leva o nome do sacerdote católico que militou na defesa dos direitos humanos durante o regime militar.

O bispo de Limoeiro do Norte pediu que os parlamentares reanalisassem a decisão. E, depois, adotou um discurso conciliador: “A atitude que acabo de assumir, assumo-a com humildade, sem pretensão de dar lições a pessoas tão competentes e tão boas”. Dom Manuel desejou um Feliz Natal e encerrou o discurso. Os outros quatro homenageados com a comenda foram Dom Pedro Casaldáliga, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e os defensores públicos Wagner de La Torre e Antônio Roberto Cardoso.

A recusa do religioso ocorre seis dias depois que deputados e senadores reajustaram os próprios salários de 17,5 mil para 26,7 mil reais – um aumento de quase 62%, três vez maior que a inflação acumulada. O salário do presidente da república, do vice-presidente e dos ministros também foi alçado ao mesmo valor, o que significou uma elevação de mais de 130%. Já para o salário mínimo, o aumento concedido pelo governo e defendido pela maioria governista é bem mais modesto: 5,8%.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Quem é Esse Menino

“Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco”.( Mt 1,23)
Sempre me tocou a austeridade do evangelista Mateus ao relatar o nascimento e a infância do Emanuel. Sequer uma palavra ou um gesto de Maria. Tampouco de José. Os dois sempre na sombra, discretos, partilhando ao lado do menino a rejeição, a indigência e a insegurança.  Por que não vislumbrar nisto a primeira atitude que não pode faltar naqueles que pretendem revelar Deus à humanidade? Mesmo na pós-modernidade midiática. Nada de holofotes naquela noite de natal: só a estrela. Nada de protagonismo: só um menino chorando.
Mais interessante ainda, em Mateus, quando Jesus é chamado de “Emanuel”, que quer dizer “ Deu conosco”. Não mais o misterioso nome que assustava Moisés enquanto a sarça ardia. Bem mais compreensível ao entendimento e à experiência humana é a interpretação do velho Isaias: “O meu povo reconhecerá o meu nome; nesse dia compreenderá o que eu dizia:“Aqui estou!  (Is 52,6)

Não pretendo pousar de biblista, ainda mais diante da simplicidade do natal de Belém. Tenho certeza, porém, que é exatamente aqui que o Deus de nossos pais faz a grande diferença.  Desconcertante, simples e consolador um Deus cujo nome soa mais ou menos assim: “Aqui estou!” Sim: Deus sai de sua infinita distância e de sua invisibilidade e se torna visível, concreto e palpável. Um Deus que se deixa alcançar.
Entrando a fazer parte da nossa história com semblante humano, o Filho de Deus faz questão que continuemos a procurá-lo no meio dos homens e das mulheres. E, mais ainda, quer ser acolhido como homem. Por isso, desde que o Filho de Deus se tornou o Filho do Homem, só é possível encontrá-lo na convivência amorosa com seus filhos e filhas. Pois Ele, não só se fez homem, mas ficou para sempre entre nós.
Confesso que, até hoje, não consigo entender aqueles inúmeros pastores com seus  respectivos rebanhos que pretendem “entender” de Deus mais que o próprio Deus. Nada contra os templos repletos de luzes, de sacrifícios e de louvores com atordoantes decibéis. Na certa, o Emanuel, o Deus conosco aponta em outras direções. Assim como a estrela, naquele primeiro dramático natal, apontava silenciosa para e estábulo e não para o palácio.  
Em Belém, um menino nasceu tão distante e tão pobre que, ainda hoje, preferimos esquecer o seu nome. Na verdade, a quem interessa o Emanuel, o Deus conosco que, a todo instante, cruza o nosso caminho e não cansa de repetir:  estou com fome e sede,  sou estrangeiro, estou doente, não tenho roupa, estou mofando na prisão?

Neste Natal, esperando a Missa do galo,  mais uma vez rezarei assim:

Quem diz que Deus, quem diz que ele é o Deus ,
o irmão,companheiro da gente pobre: deve saber o que diz.
Está dizendo que Deus é deserdado e pobre
explorado e amordaçado, como todo o povo pobre.
Quem diz: eu creio em Deus, eu creio em Deus,
e grita: Senhor, Senhor...mas quer prosperidade a todo custo
e arranca dinheiro da agonia dos pobres,
este renega aquele que disse: Eu sou um Deus de pobres.
Quem se sente quite neste sistema de “vale quem tem” e “a pobreza é normal” ;
 quem pensa:  “ninguém pode me obrigar; que culpa tenho eu? “
e chamando-se inocente lava as mãos:
este aí endureceu o coração e nega a Deus que diz:
- Sou eu mesmo que é sacrificado sem nome na farta mesa dos opulentos -.
Quem, nesta noite de natal
estende a mão, pega o pão e come,
está dizendo que quer um Mundo Novo onde haja pão e liberdade
para todos os homens e as mulheres.
Mas, quem tanto ousa, se dispõe a  agüentar o que agüentou o Filho do Homem?
Tu Jesus, Emanuel, Deus conosco,
tu que te tornaste o último dos homens,
a tua palavra eu falo
o teu pão eu como
a tua morte eu morro?
Devo eu, como tu,
tornar-me companheiro desta multidão de gente pobre?

(Com essa oração, no ano da graça de 1979, desejava Feliz Natal aos meus paroquianos lá na Igreja de São João Batista em São Luis do Maranhão. Desconhecendo o autor, me permiti readaptá-la ao longo dos anos).


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

procura-se um bispo como... dom aloísio

Já tiveste a sensação de alguém, falecido há algum tempo, permanecer “vivo” para ti? Permanecer fortemente presente em teu pensamento, continuar a servir de farol luminoso para o teu agir? Muito mais do que certas pessoas ainda vivas?
É assim que nos acontece com personagens marcantes, fascinantes, vibrantes, visionárias. É assim que me acontece com Dom Aloísio Lorscheider, cujo terceiro aniversário de morte (23/12/2007) se aproxima. Tenho uma foto dele colada na minha mesa de trabalho, é verdade, mas é a imagem dele que me vem à mente quando penso na Igreja em que acredito. Por que será?
Indubitavelmente, porque Dom Aloísio tinha um perfil próprio, possuía um estilo inconfundível, era uma personalidade. Não se parecia com esta imagem episcopal padronizada e imposta que impera hoje: a dos prelados pomposos, envoltos numa aura de sagrado luminoso, mas sem quase nenhuma irradiação pessoal, donos de um discurso oficioso ensaiado, homologado, genérico e – em última análise – irrelevante para os destinos do nosso mundo. Bispos sem estatura própria, “meninos de recado” do Grande Pai em Roma, do “Santo Padre” (que blasfêmia, meu Deus!), cumpridores solícitos de ordens superiores, que nunca dizem o que realmente pensam, mas somente o que são mandados para dizer em nome da Instituição Eclesiástica. Bispos que "cavalgam ad nauseam velhos cavalos de batalha” como o aborto e a moral sexual (dos leigos, é claro!), mas que se calam diante das maiores atrocidades e injustiças que afligem a nossa sociedade. Bispos que me entediam com o que falam e não me arrastam, pelo seu exemplo, à prática do bem, à transformação do mundo. Ao contrário destes bispos “mornos”, Dom Aloísio era “quente”, na fala e no testemunho pessoal. Quer ver? Então veja!

Na fala: “Estamos fazendo bonitas palestras, pregando belos retiros [...], mas na realidade, não estamos concluindo nada! As grandes iniciativas realmente relevantes não estão saindo, porque ainda não reconhecemos, de fato [...], a função e a dignidade cristã do leigo e da leiga” (MLA* pp.144-145). Ou que tal isto: “O leigo deve ter sua própria condição dentro da Igreja. Não deveriam ser convidados leigos ‘maquiados’ e sim, leigos-leigos” (MLA p.47). “Sem luta e engajamento, não se chega à felicidade verdadeira! [...] Agora, a grande maioria das pessoas, hoje, espera do recurso ao ‘sagrado’, em primeiro lugar, proteção e defesa contra todos os males. A motivação ‘religiosa’ encontra-se muito mais próxima do medo e da insegurança do que da convicção e do compromisso” (MLA p.140). “O que acontece é que os cristãos se tornam cautelosos, não querem se expor. Está desaparecendo a espontaneidade. Para que haja mais espontaneidade deveremos, da parte do episcopado, aceitar a franqueza das pessoas. Um indivíduo que fala com franqueza não quer ofender ninguém, mas quer ajudar: isto está faltando na Igreja!” (MLA p.172). “Foram dois desafios que não foram abraçados: a opção preferencial pelos pobres e a organização das CEBs. É um desastre: O clero não acompanha as CEBs!” (MLA p.85).
Estás vendo? Qual o bispo que, hoje, ousa falar assim?
Assembléia CEBs Fortaleza 2010

E no testemunho: Tenho fotos de Dom Aloísio visitando casas e casebres no Morro do Teixeira/Castelo Encantado, subindo e descendo – na areia das dunas – os becos de favela, levando fé, esperança e amor aos pobres. Guardo ainda hoje recortes de jornal que mostram o mesmo Dom Aloísio em um dos presídios mais perigosos da Ceará, o qual costumava freqüentar (Qual o bispo que ainda leva a sério a palavra de Jesus: “Eu estive preso e tu foste me ver”?). Lembro-me como Dom Aloísio criou e equipou o Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos na Arquidiocese, para prestar assistência jurídica às populações indefesas, sobretudo aos indígenas (perguntar não ofende: quanto o Arcebispado investe, atualmente, neste trabalho?). Foi Dom Aloísio que patrocinou experiências de formação seminarística inserida no meio popular, fora do Seminário. Também foi ele que conseguiu, por sua iniciativa pessoal, reverter uma ordem vinda do Vaticano para despedir os padres casados que atuavam como professores no curso de Teologia. Para não falar do incentivo importante que ele deu à criação da Conferência Nacional dos Leigos no Brasil – projeto abortado pela CNBB de hoje.

Por tantas palavras e atitudes corajosas e marcantes, a figura de Dom Aloísio permanece vivíssima e luminosa para mim. Já não posso dizer a mesma coisa de muitos prelados pasteurizados que hoje desfilam solenemente seus paramentos em torno dos altares até desaparecem, literalmente, na nebulosidade do incenso: às vezes, me lembram os “sepulcros caiados” de quem falava Jesus... – cala-te, boca!
Salve, Dom Aloísio, salve-nos!

Carlo Tursi - Teólogo e membro de “O GRUPO”

do site: www.ecooos.org. 



*MLA: “Mantenham as Lâmpadas Acesas”, EdUFC, Fortaleza 2008

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

copa 2014 em zona de rebaixamento

“A sociedade clama contra a delinqüência infanto-juvenil, mas não se escandaliza com o imenso contingente de menores que fazem da rua sua escola. Na verdade não seria difícil, sobretudo em vários Estados da Federação, reformular a vida escolar em termos de tempo integral... Nem parece haver falta de recursos, pois estes sobram para outros projetos desenvolvimentistas. De novo, aqui a estrutura social iníqua aplica o mínimo para ter mão de obra futura, e não atende às exigências da pessoa humana.”...

Achei esse trecho entre os poucos alfarrábios que guardo com carinho. Faz parte da publicação: “Subsídios para uma Política Social” da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Era o ano da graça de 1979. A terminologia e o conceito de “projetos desenvolvimentistas” mudaram , sem dúvida. De lá para cá, a realidade também mudou bastante. E foi para pior. Refiro-me à problemática infanto-juvenil.


Enquanto isso, em nome da Copa 2014, as cidades agraciadas com algumas centenas de chutes na jabulani (o que estará cogitando a ADIDAS?), já vivem na embriaguês da dinheirama nunca vista, dando início a um festival de obras de duvidosa prioridade. O marketing oficial se encarregará de vender gato por lebre oferecendo assim, aos incautos turistas, a imagem do País das mil maravilhas, de fazer inveja ao primeiro e aos demais mundos. A não ser que, na mesma proporção orçamentária prevista para o desempenho da Copa 2014, algo ou muito mais seja reservado para que a educação saia da zona de rebaixamento, por enquanto  irreversível, terreno fértil para o fogo cruzado do  crack e das balas perdidas. É esta a razão que me motivou a tirar do baú o grito dos bispos nos idos de ´79.
Perguntar não ofende. Por onde anda a lucidez e a coerência profética que dava à Igreja, em tempos não muito remotos, autoridade e razão de ser? Desconheço, até hoje algum pronunciamento oficial da CNBB ou de outras Igrejas sobre os impactos sociais da Copa 2014. Se houve, deve ter sido tão pífio a ponto de passar batido. “O vento sopra onde quer”  (Jo 3,8) e, pelos vistos,  hoje vem com as rajadas de fogo da favela do Alemão e das demais “zonas de rebaixamento” do País da Copa 2014.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

criança feliz...


Em sintonia com o clima natalino, a tia perguntou à sobrinha:
“Por que será que papai-noel, todos os anos, traz presentes só para as crianças e nunca para os adultos que, se quiserem ganhar presentes, têm que comprá-los? 


Emanuela pensou um pouquinho antes de responder: “É porque as crianças, 
quando recebem presentes, 
são mais felizes do que os adultos”.
Quem me contou foi minha amiga Francesca. O diálogo aconteceu entre elas duas, faz poucos dias. Recebi por e:mail.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

a árvore, o machado e o fogo cruzado nos morros

"O machado já está 
na raiz das árvores,
e toda árvore 
que não der bom fruto

                                                                                     
será cortada 
e jogada no fogo". 
                                                                                                                                             
                                 Mt 3,10

domingo, 5 de dezembro de 2010

GUERRA NO RIO: CONTRA QUEM?

Recebi e passso adiante este artigo do meu amigo Pe. Renato Chiera, fundador da Casa do Menor São Miguel Arcanjo. É o ponto de vista de quem, há mais de 25 anos, convive com crianças "adotadas" pelo narcotráfico porque "abandonadas" pelos poderes constituidos. A Casa do Menor S.M.Arcanjo teve início na Baixada Fluminense em 1986 e se espalhou em várias cidades do Brasil, inclusive em Fortaleza.

Guerra no Rio contra a ditadura do narcotráfico?
Guerra contra os jovens e adolescentes que  a  sociedade e os governos esqueceram há muitos anos?

 Guerra contra os filhos do Brasil excluídos,não vistos e não amados e sem futuro?

Quem gerou o narcotráfico e os narcotraficantes?
Quem de verdade fatura  com bilhões gerados pelo trafico?



Acompanhei com espanto uma guerra verdadeira no Rio que durou mais de uma semana
Uma guerra nunca acontecida  antes: guerra  contra os nossos adolescentes e  jovens, que espalham terror e medo, incendiando  carros, ônibus, caminhões e colocando bombas relógio e que criaram um poder paralelo e tem capacidade de encarar o estado.

Vibrei com a chegada da Policia militar com 20 mil homens. Vibrei com a chegada da marinha e do exercito e da policia federal e do BOPE. 
Vi a população acolher até com sinais de festa e com bandeiras colocadas nas janelas, a chegada dos “libertadores” de uma ditadura do narcotráfico que mantém reféns inteiras comunidades.A desconfiança do povo  contra a policia é motivada pelo passado e pela chegada de falsos libertadores como a milícia.
È a primeira vez que a policia é bem aceita e recuperou uma certa auto estima depois de anos de corrupção e conivência com o crime organizado
Acompanhava as noticias e queria saber se esta guerra podia ser ganha sem derramar muito sangue

Mas quando com a TV consegui entrar  nas duas favelas, há anos inacessíveis, onde moram mais de 400 mil pessoas, em  total abandono em todos os sentidos há dezenas de anos, quando apareceram os rostos destes bandidos perigosos: rostos de adolescente e jovens, descalços, sem camisa,  com varias tatuagens, caras enrugadas, olhos apagados,alguns presos pela policia, a maioria  fugindo a pé, largando tudo, descobri quem eram estes bandidos perigosos contra os quais tivemos que usar todas as forças  de guerra  e de defesa do nosso governo.Senti uma dor profunda e percebi que não são estes pé de chinelo os que de verdade lucram com o trafico, nem os chefões que constroem mansões mas um poder invisível e anônimo que não aparece.  Me veio uma grande pergunta: Bandidos ou filhos violentos porque não amados por ninguém e usados como “bucha de canhões”.
 E ainda:contra quem a sociedade está fazendo a guerra com tanque e carros armados e metralhadoras e atiradores  de elite?
Quando eu vi o poder de fogo, e de resistência e de movimentação de centenas de jovens adotados pelo  exercito do Narcotráfico,  me perguntei: como deixamos tudo isso nascer e se fortalecer em quase 30 anos, sem fazer nada e sem intervir  nas causas que geraram exércitos de desesperados,  excluídos, revoltados e violentos?

Aí parei e fiquei triste.
São nossos filhos que as famílias não educaram e não amaram, que a escola não alcançou, que a comunidade discriminou, que o governo esqueceu, que as políticas publicas não levaram em consideração  e que, de filhos que eram ou deveriam ser, se tornaram perigosos e temíveis  bandidos, sem nada para perder.
São os filhos das nossas comunidades empobrecidas ( favelas e não), que o progresso não adotou, que o consumismo seduziu e que não tiveram nenhuma oportunidade, sem amor, sem escola, sem profissão e sem possibilidade de um trabalho digno. São adolescentes e jovens sem futuro, alguns muito inteligentes, (os chefes ou aspirantes chefes? ) que se organizaram na clandestinidade ,formando um mundo e um  estado paralelo onde possam sobreviver, procuraram na criminalidade a visibilidade , a” cidadania “negada, o dinheiro fácil, e  se armaram para  agredir uma  sociedade e um sistema  que os excluiu, e agora faz  guerra contra  quem gerou mas não acompanhou.Eu recebo quase todo dia adolescentes assim na casa do menor.Hoje chegou  na casa do menor um adolescente magro,dentes quebrados,16 anos e se apresentou assim: eu sou um ex-traficante.E assim dezenas que chegam feridos no corpo mas mais na alma.Dizia hoje este adolescente: eu tenho em mim muita magoa,raiva contra meus pais que me abandonaram desde pequenos e não me procuraram nunca
O governo do Rio devia fazer o que  fez, ninguém agüentava mais a opressão e o medo das varias facções, donas do morro, mas devemos refletir  todos juntos sobre o que está acontecendo no nosso Rio e pode acontecer no Brasil inteiro de um momento ao outro
 Fazemos  uma guerra que nunca aconteceu na historia da humanidade.Uma guerra não contra países  inimigos que nos ameaçam,  mas contra os nossos próprios filhos que viraram monstros perigosos, cruéis e dispostos a tudo para ter dinheiro,ter  mansões,  carros, motos, roupas na moda,  rádio e celulares. Não é isso que prega todo dia nossa sociedade consumista  e hedonista?
Uma guerra de todos contra nossos filhos, filhos de nossas famílias, filhos do nosso Rio,  cidade maravilhosa ( mas não para todos), filhos do nosso estado rico em petróleo e belezas, filhos do nosso Brasil  que está se desenvolvendo e se tornando quinta  potencia econômica.Uma guerra que  nos custa muito mais daquilo que custaria dar escola,profissão ,futuro.
Sentido de alivio:  guerra vencida ou derrota de uma sociedade  inteira que não cuida  dos seus filhos mais necessitados?
Podemos sossegar?
 Não!
Duas favelas foram ocupadas, mas existem muitas outras.
Agora precisa ajudar estes bandidos e outros candidatos á marginalidade, a encontrar oportunidades e alternativas  ao narcotráfico ou á  criminalidade e preservar os nossos meninos e meninas que ainda não estão no narcotráfico.

Sei que meninos e meninas da  baixada fluminense estão sendo nestes tempos  treinados para se tornarem traficantes profissionais e abrir e gerenciar bocas de fumo  na grande e carente baixada fluminense,com a descentralização do trafico do Rio em vista da Copa do mundo e das Olimpíadas.

O que esta acontecendo com nossos filhos que não são mais uma esperança e um dom para nossa pátria amada Brasil, mas ameaça para todos?
Devemos atacar as causas profundas e não agir apenas nas conseqüências ou nossa sensação de vitória e  de paz durará pouco.E porque não se vigiam as fronteiras e porque este trafico livre de armas? Porque a grande  imprensa e poderosos não apoiaram o  plebiscito para  o desarmamento no Brasil?
O Rio tem mais de mil favelas e a baixada é quase toda uma grande favela que foi sempre abandonada e é  espaço propicio para quem quer lucrar usando mão de obra  barata de adolescentes  e jovens sem perspectivas.
Fico feliz de ter fundado na baixada  há  25 anos atrás  a  casa do menor S M.Arcanjo, hoje espalhada pelo Brasil afora,que já ofereceu oportunidades verdadeiras á  milhares de adolescentes e jovens  sem amor e sem futuro ,que agora, com escola e profissão, se tornam protagonistas e cidadãos , não mais ameaças, mas orgulho do nosso Brasil.Modelo profético de políticas publicas?
Não vencemos ainda a guerra contra o poder do narcotráfico  e a criminalidade,apenas uma pequena batalha.

Espero que tudo aquilo que está se fazendo no Rio,não seja apenas em vista da Copa do mundo e das Olimpíadas, mas seja expressão de uma vontade política sincera para um Brasil para todos.
È possível e não custa como a repressão da violência.

Pe. Renato Chiera
Doutor em filosofia e  fundador da Casa do Menor S.M.Arcanjo.

OS PERIGOS DA CIDADE (2)

                   Fortaleza das belas... placas

Bem em frente à Secretaria de Justiça e Cidadania na rua Tenente Benévolo esquina com Travessa Acaraú. O "emplacamento" já vai entrar pela quinta semana. Foto tirada no dia 01/12/2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

prioridade absoluta

Audiência discute medidas socioeducativas eTribunal de Justiça mantém decisão que obriga Estado acabar superlotação nos Centros.


A Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Ceará realizará, no dia 1 de dezembro, às 14h30min, no Complexo das Comissões Técnicas, audiência para discutir a situação do sistema socioeducativo no Estado do Ceará.
A audiência foi requerida pelo Deputado Federal Heitor Férrer, a pedido do Fórum Permanente das ONGs de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum DCA Ceará) e dos instrutores dos centros de internação, e terá como objetivo central discutir a situação dos adolescentes privados de liberdade e as condições dos trabalhadores dentro dessas unidades.
No dia 12 de novembro, aconteceu uma rebelião, no Centro Educacional Aloísio Lorscheider (Cecal), na qual dois instrutores e alguns adolescentes ficaram feridos. Essa foi a sexta rebelião ocorrida somente este ano no Estado. A situação de violação de direitos nas onze unidades de privação de liberdade de adolescentes, que abrigam mais de mil adolescentes em cumprimento desta medida socioeducativa no Estado do Ceará, vem sendo denunciada há vários anos pelo Fórum DCA.
Já no ano de 2009, com base nas violações identificadas pelo FDCA, o Cedeca Ceará impetrou uma Ação Civil Pública, exigindo que o Governo do Estado regularizasse a situação dos centros educacionais, o que envolvia desde a resolução da situação de superlotação das unidades até a aplicação de projeto pedagógico e investimento em estrutura. Essa decisão havia sofrido recurso. No entanto, no dia 26 de novembro de 2010, o Tribunal de Justiça decidiu por manter a decisão do juiz de primeira instância, que obrigava que, no prazo de seis meses, o Estado regularizasse a situação de superlotação de todas as unidades, sob pena de interdição das mesmas e multa diária de 100 reais por adolescente.

Para entender melhor

Uma série de problemas encontrados nas unidades comprometem a finalidade socioeducativa da medida: a equipe multiprofissional insuficiente para o número de adolescentes em cada unidade, a situação precária de trabalho dos técnicos e instrutores (baixo salários, falta de autonomia, a terceirização do serviço, acarretando constante troca de empresas e fazendo com que os funcionários percam o gozo das férias); não há uma avaliação criteriosa para a seleção dos instrutores e técnicos nem capacitação continuada; a quantidade de horas/aulas de educação formal para os adolescentes é irrisória e ainda encontra dificuldades de ser reconhecida fora dos centros educacionais.
Segundo o FDCA, prioridade e investimento na execução das medidas são necessários
Como solução para os problemas envolvendo as unidades, os gestores públicos apontam a construção de novos centros, mas o Fórum DCA afirma que essa medida, por si só, não resolverá a situação das medidas socioeducativas no estado.
Segundo representantes do Fórum DCA, o bom funcionamento das medidas socioeducativas passa pela prioridade dada pelos gestores públicos às medidas socioeducativas. No âmbito do governo estadual, responsável pelas medidas de privação de liberdade, é necessário investir recursos suficientes para o seu bom funcionamento, qualificar e garantir boas condições de trabalho para os funcionários dos centros, garantir a execução de plano individual de atendimento dos adolescentes, assegurar o exercício do direito à educação dos adolescentes e do atendimento à saúde, dentre outras providências.
No âmbito municipal, é necessário que a prefeitura de Fortaleza invista nas medidas socioeducativas de meio aberto para que ela cumpra seu papel, evitando que o adolescente reincida no ato infracional e provoque o agravamento da medida, o que contribui com o aumento do número de adolescentes cumprindo medidas de privação de liberdade. Em relatório divulgado em agosto deste ano, o Cedeca Ceará avalia a situação da medida socioeducativa de liberdade assistida. Equipe reduzida para o número de adolescentes assistidos, falta de espaços para realização de atividades pedagógicas, alta rotatividade de profissionais, esparso contato do adolescente com a equipe que o acompanha, dentre outros problemas, comprometem, ou mesmo, inviabilizam o cumprimento do papel da medida.
O Fórum aponta, ainda, a responsabilidade do poder judiciário diante da situação de superlotação dos centros educacionais. De acordo com o artigo 121 do ECA “a internação está sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e do respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”, porém, muitas vezes, a medida de privação de liberdade não é aplicada como último recurso, sendo aplicada em casos nos quais caberia uma medida socioeducativa em meio aberto. Essa postura de parte do poder judiciário contribui com o aumento do número de adolescentes nas unidades de internação.

(fonte: CEDECA- Fortaleza)