domingo, 6 de março de 2016

SOBRE LULA E A LAVA-JATO

* Jean Willys

Em tempos de polarização política, quando tudo é discutido em clima de torcida, sem nuances, é muito difícil se pronunciar sobre o que é complexo de forma complexa, sendo sincero e agindo com honestidade intelectual, porque o que boa parte do público espera e quer é um posicionamento enviesado pela adesão cega ou a rejeição raivosa. "Lula, guerreiro do povo brasileiro" ou "Um, dois, três, Lula no xadrez". "Fora, Dilma" ou "Não vai ter golpe". Mas as palavras de ordem pouco dizem sobre os fatos, pouco ajudam a entendê-los.

Eu não fiquei feliz com o que aconteceu hoje. Não mesmo. Sou consciente de que a imagem do Lula sendo conduzido à sede da Polícia Federal é um golpe duro para uma história de luta, para os sonhos e as utopias de muita gente, e será usado (e já é festejado) por aqueles que sempre ganharam às custas do sofrimento dos mais pobres, por aqueles que acham insuficiente a rendição do PT e as políticas de ajuste da presidenta, e querem mais, ainda mais. Contudo, essa imagem é o resultado de uma política que é responsabilidade do Partido dos Trabalhadores.

A corrupção não começou com o PT e não se esgota nele (embora o vazamento seletivo de informações e a clara tendenciosidade de parte do judiciário e da mídia apontem sempre para um único lado, o certo é que na própria operação "lava-jato" estão envolvidos políticos do governo e da oposição, com destaque para Eduardo Cunha), mas o pecado original do PT foi chegar ao poder e adotar as mesmas práticas que antes combatia.

O PT não inventou a corrupção, mas aprendeu e gostou. Não inventou o mensalão, mas fez uso dele. Não inventou a propina, mas começou a recebê-la. Não inventou o financiamento empresarial de campanha, mas passou a depender dele. Não inventou as relações promíscuas com as empreiteiras, mas se acostumou a praticá-las. Da mesma forma que não inventou o ajuste fiscal, mas o praticou. Não inventou o PMDB, mas se associou a ele. Não inventou as alianças da política com o fundamentalismo religioso, mas renunciou à agenda de gênero e à liderança na luta LGBT para acordar com os pastores milionários. Não inventou Cunha, que já tinha sido arrecadador de Collor e PC Farias, mas se aliou a ele, e depois foi traído por ele, hoje aliado ao PSDB.

Cada uma dessas escolhas políticas foram pavimentando o caminho que nos levou à atual conjuntura: um governo cada vez mais débil, uma crise econômica e um ajuste que estão acabando com os ganhos sociais do lulismo e um esquema de corrupção que ameaça envolver até o Lula. Nada disso me faz feliz, muito pelo contrário, mas são fatos.

É nesse contexto que hoje assistimos ao show televisivo da "condução coercitiva" do Lula, tão espetacular quanto desnecessária, já que ele nunca se negou a colaborar com a justiça. Esses abusos merecem meu repúdio, da mesma forma que os vazamentos seletivos, a parcialidade de boa parte da imprensa e a hipocrisia da oposição de direita, que financiou suas campanhas com o dinheiro das mesmas empreiteiras da lava-jato que financiaram o PT. As empreiteras pagaram as campanhas de todos eles! Toda essa hipocrisia me repugna.

Porém, o que mais me entristece é que os que deveriam ter combatido tudo isso tenham se adaptado ao sistema e aprendido suas práticas. É triste porque a derrota é de todos nós, da esquerda, inclusive daqueles que, como eu, nunca militamos no PT. Graças a tudo isso, os tempos que vêm serão provavelmente sombrios e custará muito reconstruir uma alternativa política popular e conseguir que a maioria acredite nela.
Será difícil, mas é necessário, e eu espero que essa geração não cometa os mesmos erros.

* Deputado Federal - PSOL do Rio de Janeiro. Jornalista e profesor universitário

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