domingo, 31 de outubro de 2010

quem mexeu no meu bolso

Lc 19,1-10

Zaqueu, nome um tanto estranho e raro. Mais estranho ainda quando a gente sabe que Zaqueu quer dizer “aquele que é inocente, que é puro”. Logo ele que, em Lucas 19, 1-10, é apresentado como “chefe dos cobradores de impostos “. Inocente? É só lembrar que os cobradores de impostos figuravam, sem remissão, no rol dos pecadores públicos, mantidos à distância e tachados de impuros pelos  judeus  praticantes. Um caso, quase perdido até pelo evangelho, pois Zaqueu “era muito rico”.
Pouco antes deste episódio (Lc 18, 25) Jesus acabava de sentenciar “ser mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”. A carapuça cabia direitinho naquele jovem “ bom”  que, apesar de praticar a lei nos mínimos detalhes desde a infância, preferiu ir embora “triste, porque era muito rico”. Os dois “queriam ver Jesus” – refrão tão cantado hoje em versos e prosas – mas quem o encontrou foi exatamente Zaqueu, o excomungado e caso perdido.

Algo me intriga há muito tempo, de tanto ouvir falar em conversão. Ainda ontem, celebrando com uma comunidade bem humilde cujos casebres persistem incrustados no meio dos altos prédios da pouco humilde Aldeota, tomei a liberdade de perguntar quais os sinais  concretos da conversão de Zaqueu. A maioria sinalizou para a conversão do coração, alguns acrescentaram a conversão da cabeça, mas foi dona Regina que completou as respostas dizendo que Jesus foi capaz de tocar sim o coração e a mente de Zaqueu mas que chegou a fazer muito mais: mexeu com o bolso dele. De fato, a salvação entro na casa do “baixinho” quando criou coragem para dizer: “A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais”
Proponho Zaqueu para entrar no guinness book das conversões. Que dízimo, que nada: a metade de todos os bens aos pobres e – pasmem – a devolução do quádruplo de todo o lucro da corrupção. Muito mais radical do que o próprio Levítico que não exigia isso tudo; radical demais para o nosso gosto também. Será possível alguém ser tão rico num mundo onde a pobreza não para de crescer? Diga-se das Nações também.
            De acordo com o último documento da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento – Unctad,  o número de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia nos 49 países mais pobres do mundo -principalmente em África- mais do que duplicou nos últimos 30 anos, chegando a 307 milhões, o que equivale a 65% da população africana.  As estimativas são de que este número pode chegar a 420 milhões em 2015.
E a conversão com isso? Que se cuidem os que são muito ricos (as Nações também) e que nunca se deixaram questionar, sobre a origem de suas riquezas. E cuidemo-nos todos nós, visto que uma maneira nova de usar os bens e uma nova relação com a justiça social tem muito a ver com a conversão do bolso, em nome de Jesus. Por que as igrejas falam tão pouco da relação entre Fé e Economia?
Enquanto está ocorrendo a apuração das urnas, finalizo minha divagação evangélica e vou celebrar mais uma Eucaristia. Goste quem quiser, mas hoje vale a pena cantar: “Como Zaqueu, quero subir no mais alto que eu puder. ... Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura, sara todas as feridas...”. Depois de Deus, só o tzunami pra abalar certas estruturas!

Ops! Por razão de tempo, vou postar agora. O Brasil ganhou mais uma vez. Só resta torcer e aprender umas tantas coisas. Mas este é outro assunto.

sábado, 30 de outubro de 2010

esqueceram de mim

Ao apagar das luzes da campanha eleitoral mais insossa de todos os tempos, onde tudo e nada foi debatido, muito revelador foi o silêncio dos candidatos sobre a explosiva problemática carcerária. Nem foram capazes de inseri-la no contexto das propostas superficiais de enfrentamento da violência. Aconteceu também no primeiro turno apesar da presença de mais candidatos. O pouco que de concreto apareceu não passou do batido engodo das construções de novos presídios de segurança máxima. Bem ao gosto da opinião pública que, mesmo tendo consciência da gravidade do problema, prefere removê-lo. Quanto menos o debate se interessou da reforma do judiciário, assunto reservado aos deuses daquele Olimpo. No fundo, cadeia a mais, cadeia a menos, este é um assunto que não rende voto. Só se for para a chamada “turma da bala” quando  apregoa a pena de morte e trabalhos forçados na prisões. Ausente na pauta eleitoreira, tudo indica que nada de significativo será pensado para os próximos anos.
Enquanto isso, a explosão dos fogos pirotécnicos que iluminarão Brasília no dia primeiro de janeiro próximo, poderá coincidir com o “meio milionésimo” réu atrás das grades. Mas, a quem interessa saber que, dentro de poucos meses, a população carcerária no Brasil alcançará o recorde de meio milhão de presos?
Não haverá novidade, então, a não ser a continuidade da política do ”fazer de conta”. A polícia fazendo de conta que estará prendendo, o delegado que estará investigando e o juiz cumprindo como a lei manda. A vítima receberá em troca a justiça que queria, e a sociedade fará de conta de se sentir mais segura pois, quanto mais bandidos atrás das grades, mais segurança para todos.
E o interminável jogo do “fazer de conta” não tem fim. Para os responsáveis últimos pela custódia dos detentos não haverá outro jeito a não ser fazer de conta que a massa carcerária está sendo  ressocializada e, finalmente, calculado matematicamente o vencimento legal da pena, caberá ao meritíssimo senhor juiz devolver à sociedade o criminoso de ontem, agora cidadão, porque pagou com a prisão a que devia.
Mas existe um porém. Por que levar à sério o período da pena aplicada em nome da lei, quando os próprios responsáveis pela execução penal são os primeiros a transgredirem sistematicamente a Lei de Execução Penal? Ao apenado então, que nada tem de bobo,  não restará outra saída a não ser participar deste jogo comum e fazer de conta também. Se assim não fosse não teríamos uma reincidência beirando ainda 80%. Exceções existem, não resta dúvida.
Após a ressaca das urnas, alguém vai tirar do esquecimento a triste realidade de uma população carcerária de quase meio milhão de brasileiros e começar a desarmar a bomba relógio na qual se transformou o sistema penitenciário, prestes a explodir? Se há superlotação, não é devido unicamente ao crescimento da criminalidade. Se assim fosse, bastaria continuar a construir presídios e mais presídios. É o que sempre fizemos e sem sucesso. Será que uma jurisprudência um pouco mais moderna, menos punitiva e mais restaurativa não poderia oferecer a muitos que transgridem a lei alguma outra sentença que não seja exclusivamente a prisão? E, quando a prisão for mesmo necessária, o que fazer com meio milhão de brasileiros que vegetam, anos a fio, na mais destruidora ociosidade,  terreno fértil para todo o tipo desvios?
Saídas existem e muitas. Umas até estão sendo ensaiadas aqui acolá, ainda que timidamente. O recente Mutirão Carcerário promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foi com certeza uma iniciativa louvável. Mas precisamos torcer para que, um dia, a política das execuções penais seja o resultado de um grande mutirão multidisciplinar onde o Judiciário e a Segurança Pública não sejam mais os únicos sujeitos  do planejamento das práticas penitenciárias.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

a honestidade dos estúpidos

Quero brindar os leitores conhecidos e anônimos do meu
modesto blog com esse pensamento bastante oportuno. A todos uma semana de paz e.... DILMA LÁ!


"A honestidade dos estúpidos 
é mil vezes mais perigosa
que a mentira dos inteligentes.
É da honestidade dos estúpidos
que surgem os fanáticos.
Os fanáticos são pessoas honestas
que acreditam nos seus pensamentos
e nada os dissuade do seu  caminho.
E porque acreditam
na verdade dos seus pensamentos
 tudo fazem para destruir
aqueles que têm idéias diferentes

Rubem Alves em: "Ostra feliz não faz Pérolas" pag.159

domingo, 24 de outubro de 2010

radicalização

Achei por demais lúcida a opinião do jornalista Valdemar Menezes publicada na coluna CONCIDADANIA do jornal O POVO de 23/10/2010. Concorde ou discorde quem quiser.


A campanha chega na reta final com uma polêmica sobre uma bolinha de papel que promete render ainda muito nos meios que estudam o processo jornalístico em campanhas eleitorais. Seja qual for a interpretação, o fato é que é preciso redobrar os cuidados para o que pode vir pela frente durante esta semana decisiva. Claro, Serra também tem sido atingido por maledicências, mas, é justo reconhecer que a candidata de Lula é o maior alvo dos ataques pessoais. Ela é hostilizada o tempo todo, seja por sites de militares aposentados (tipo Grupo Guararapes, Resistência e Ternuma), seja por redes sociais, seja por emails e panfletos apócrifos. A onda na Internet é sistemática e chega a níveis inimagináveis de preconceito, difamação e ódio.

 EMAILS FALSOS

Aqui vai uma pequena mostra da podridão que rola na Internet, através de emails falsos contra a Dilma Roussef: 1) morte de Mário Kosel Filho: http://migre.me/1pfAb; 2) a ficha falsa de Dilma Rousseff na ditadura: http://migre.me/1pfCc; 3) porteiro que desistiu de trabalhar para receber o Bolsa-Família: http://migre.me/1pfEJ; 4)Marília Gabriela desmente email falso: http://migre.me/1pfSW; 5)Dilma não pode entrar nos Estados Unidos: http://migre.me/1pfTX; 6) foto de Dilma ao lado de um fuzil: http://migre.me/1pfWn; 7)Lula/Dilma sucatearam a classe média (B) em 8 anos: http://migre.me/1pfYg; 8) email de Dora Kramer sobre Arnaldo Jabor: http://migre.me/1pfZH; 9) vídeo de Hugo Chaves pedindo votos a Dilma: http://migre.me/1pg6c; 10) matéria sobre amante lésbica de Dilma: http://migre.me/1pg7p. Fascismo puro. 

MANIFESTAÇÕES

Há também a indução ao medo - coisa só vista nos momentos que antecederam o golpe militar de 1964, com as Marchas da Família por Deus e a Liberdade. Hoje, novamente se faz chamamentos à família para outros tipos de marchas. A do aborto, por exemplo. Pouco importa se os candidatos dizem que não mexerão nessa questão. Até a Dilma - que seria supostamente o motivo de temor - fez publicar compromisso público com as igrejas, garantindo que não tomará iniciativa nessa questão. Por que então a insistência? É tudo muito estranho... Se a disputa ainda fosse para o Congresso Nacional, poderia se entender. Mas, os parlamentares já foram eleitos. Mobilizações desse tipo só se o Parlamento colocar o tema em pauta.

 IGREJAS

A participação das igrejas – principalmente a católica (com exceção dos membros mais esclarecidos) nesta campanha é um retrocesso inimaginável. A Igreja joga fora décadas de credibilidade. Volta ao erro de 1964: naquela ocasião, apoiou o golpe, mas, depois, uma grande parte da hierarquia se afastou dos golpistas. Agora, deixa-se envolver pelos segmentos conservadores mais extremados. Protestar contra o aborto é direito seu. Mas só em caso de a questão ser colocada. Neste momento, soa como adjutório à manipulação. Com isso, os segmentos pensantes da Nação tenderão a aumentar seus preconceitos em relação às religiões institucionalizadas.

 PROMESSAS

Segundo especialistas, as quatro principais promessas de campanha para a área social de José Serra: 1) elevar o valor do salário mínimo para R$ 600 (ao custo de R$ 17,1 bilhões); 2) reajustar as aposentadorias acima do mínimo em 10% (R$ 15,4 bilhões); 3) dobrar o Bolsa Família (R$ 12,7 bilhões); 4) criar o 13º para esse benefício (R$ 1 bilhão) custariam aos cofres públicos mais de R$ 46 bilhões em 2011. Seria o equivalente a quase uma vez e meia de tudo o que a União desembolsou para estradas, portos, aeroportos e em obras do PAC no ano passado. De onde virão os recursos? O candidato não responde, mas, certamente dependerá de cortes imensos de gastos do Estado. Nas costas de quem? – eis a questão.
 
Valdemar Menezes
opiniao@opovo.com.br

sábado, 23 de outubro de 2010

o deus de cada um



Bem que Jesus tinha ensinado: “Quando vocês rezarem, digam: Pai nosso...” (Lc 11, 2).  Que nada! “O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens...” (Lc 18, 11). E dá-lhe reza, só para contar vantagens do tipo jejuar duas vezes por semanas e pagar o dizimo de toda a renda. Muito mais do que exigia o preceito que mandava  jejuar uma vez por semana. Enquanto ao dízimo, melhor não exagerar e ficar dentro do prescrito. Já naquele tempo não dava para se exceder na conversão do bolso.
 De qualquer forma, o fariseu era do bem e, se algum pecado ele tinha, com certeza não era o da hipocrisia. No caso, o pecado estava sendo tanto exagero de confiança na sua própria justiça. Ao ponto de pensar que, ao longo de sua existência, já tinha juntado um bocado de créditos perante Deus. Daí porque, para o bom fariseu, a salvação nada tinha a ver com a gratuidade de Deus. Cumpri minhas obrigações, mereço um prêmio e c´est fini! . Que pena: até que a oração do fariseu tinha engatado bem: “Ó Deus eu te agradeço...”.
O problema é que todo aquele que se auto-justifica só pode rezar errado. Seu olhar não está voltado para Deus, não se confronta com Ele, não espera nada d´Ele e nem precisa pedir algo a Ele. Olha para o seu próprio umbigo passa a se confrontar com os outros e, bota julgamento nisso! Nada de reza, nada de súplica, nada recebe algo por parte de Deus.
A essas alturas entra em cena o coitado do publicano cuja relação com Deus é diametralmente oposta à do fariseu do bem. Sem atrever-se a levantar os olhos para o céu, o publicano batia no peito dizendo: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador”. (Lc 18, 13). Nada de contar vantagens, nada de avançar direitos. Não tendo como se auto-justificar, só lhe restava confiar totalmente na bondade de Deus. Porque só Deus é do bem e mais ninguém.
Enfim: a única postura diante de Deus – na oração e antes disso na vida - é a de quem, a todo instante, sente a necessidade do perdão de Deus. Claro que temos que “produzir frutos de bem”, mas não é caso de “contar vantagens”. Nem para Deus, nem para os outros. Menos ainda querer confrontar a nossa santidade com à dos outros.
Há, esqueci! A meu ver, o que está em jogo na parábola acima não é tanto a metodologia da oração. (Inventaram até oficinas para ensinar a rezar!?). Sem excluí-la, o que está em jogo é a nossa maneira de conceber a vida - como um todo - em relação a Deus. A oração é só um “momento”, entre tantos outros que compõem nossa existência. A oração revela algo que vai muito além dela mesma. E ainda resta saber, quando rezamos, qual Deus temos na mente e no coração.   
A esse respeito, bem lembra escritor de contos Rubem Alves: “Há muitos deuses, cada um com a cara e o coração daquele que o tem dentro do peito. O Deus de São Francisco não era o Deus de Torquemada. São Francisco usava o fogo do seu Deus para aquecer a alma. Torquermada usava o fogo do seu Deus para churrasquear hereges em fogueiras que eram a diversão do povo”. Rezar, os dois rezavam.





sexta-feira, 22 de outubro de 2010

aleluia é pra depois

A Igreja faz a liturgia e a liturgia faz a Igreja. Não lembro quem falou isso. Só queria saber que tipo de cristão está sendo alimentado e formado com tanto besteirol musical,  insosso e anestesiante (e ainda chamam de música sacra), que enfeitam as litugias deste novo milênio. Tenham dó. Eles por elas sou mais o CREDO DAS CEBs do meu amigo Carlinhos.  


 Nós cremos em Deus Criador, fonte dos universos,
Senhor de toda religião e Pai de todo ser.
Pra longe a Inquisição! Os credos são diversos...
Nós cremos no mistério do Amor que vai vencer!

E nós cremos na Igreja-Mãe que é comunidade
E tem sabor de CEBs para nós!


 Nós cremos em Jesus que prometeu justiça aos pobres,
Que ensinou discípulos a não querer poder!
Não cremos nos pastores aliados com os nobres!
"Primeiros serão últimos..." - é preciso crer pra ver!

E nós cremos na Igreja-Mãe que é comunidade
E tem sabor de CEBs para nós!


Nós cremos no Espírito que incita com seu fogo
Os corações proféticos a levantar a voz
Contra toda exclusão: A vida está em jogo!
Entrar na luta é pra já! "Aleluia" é pra depois...
:
E nós cremos na Igreja-Mãe que é comunidade
E tem sabor de CEBs para nós!


 Estamos com Maria e também com Madalena!
Queremos mais amor de mãe, carinho de mulher!
Tradições de homens só não valem mais a pena...
Nós cremos, sim, em Débora, em Sara e Ester!

[Carlo Tursi, teólogo, CEBs-Fortaleza]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Regenerar a Campanha

A baixaria atingiu a todos e é da responsabilidade de todos. Por ação ou omissão. 
Por mim, o título seria: "Vamos esquecer esta Campanha",
mas  por respeito ao autor  deixo como está.                               
 Ganhe quem ganhar (ops! quem vai ganhar é ela!),
teremos que nos recompor e decidir por onde recomeçar.
 Conferidos os mortos e os feridos vamos pensar por onde recomeçar a " regenerar" as Igrejas e   seus pastores e pastorais, as Congregações Religiosas e Novas Comunidades e seus leigos consagrados ou não, os Partidos e seus parlamentares e militantes, os Sindicatos e a classe operária, os Movimentos Populares e o povão mesmo, as ONGs, as Universidades etc. etc...
Quem está nú não só o "rei". Todo o mundo está nú.






Dom Demétrio Valentini *

Temos pela frente mais uma semana de campanha eleitoral, em segundo turno para a Presidência da República.
Viria bem a propósito uma sugestão: quem sabe nesta semana daria para regenerar a campanha, livrando-a de sua mediocridade, e de muitos equívocos que a caracterizaram até aqui?
Quem sabe, ainda daria para debater propostas concretas de governo para os próximos quatro anos, sem perder de vista, claro, as perspectivas de um projeto de Brasil a longo  prazo. Realizar em torno destas propostas uma discussão franca, aberta, aprofundada, procurando garantir a viabilidade de tudo o que cada um pretende fazer.
A discussão poderia ser conduzida pelos dois candidatos, mas poderia se estender aos chefes dos partidos, visando o engajamento dos parlamentares para a formulação e execução dos planos de governo.
Poderia, poderia, poderia!
Mas infelizmente não vai acontecer. Está mais do que evidente que não existe ambiente para isto. A campanha já foi contaminada pelo vírus dos ataques pessoais entre os candidatos, na tentativa de desmerecer o adversário e solapar sua imagem junto aos eleitores.
Seria ingenuidade pensar que nesta última semana a campanha vai melhorar. Os ataques vão continuar, as tentativas de desestabilização também. Nada vai ser alterado. As eleições poderiam ser feitas neste domingo, embora cada lado esteja pensando como aproveitar estes dias que ainda faltam para talvez desferir um golpe mais certeiro que produza um efeito mais evidente, fazendo pender a balança para o seu lado.
Portanto, está anunciada mais uma semana de encenação inútil, de promessas infundadas. Esta campanha passará para a história como a mais suja já realizada no Brasil, levantando grandes apreensões sobre as futuras campanhas, se não forem tomadas em tempo sábias providências, a serem transformadas em leis claras e severas, capazes de coibir os abusos.
Dado que as coisas assim estão, vamos nos alertando para o exercício do discernimento. É importante conferir como é composta a pauta dos noticiários televisivos, a capa das revistas, a primeira página dos grandes jornais. Numa aparente e elegante neutralidade, vão desfilando em sequência matérias trazidas à tona e enfileiradas com o único escopo de desfazer a imagem do adversário. Sim, do adversário, porque os grandes meios de comunicação sabem muito bem escolher quem é o seu candidato, e quem é o seu adversário. E não vão poupar nenhum cartucho que julgarem capaz de causar estrago efetivo.
Esta é a realidade política neste país chamado Brasil.
O que fazer? Valorizar ainda mais o voto! É com ele que podemos frustrar quem faz da política um meio de conseguir o poder, para colocá-lo a serviço dos seus interesses pessoais e corporativos, instrumentalizando a fé e as instituições eclesiais.
O voto é nossa arma verdadeira. Ele é a pequena pedra que Davi colocou em sua funda, no combate contra o gigante Golias. A verdadeira vitória eleitoral, desta vez, não é em primeiro lugar "ganhar a eleição", mas derrotar as trapaças eleitorais. Isto a gente faz demonstrando que votamos, não levados pelas falsas acusações que se propagaram em abundância nesta campanha, mas pela vontade livre de cada eleitor, definida a partir da proposta de governo que cada eleitor achar mais conveniente para todo o povo brasileiro e para o futuro do nosso país.

* Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

pra desopilar

Rubem Alves
Ufaaa...não aguento mais tanta baixaria. Religiosa ou política, baixaria é sempre baixaria! Ontem, em Brasília, aproveitando o atraso do vôo entrei na livraria do aeroporto sem compromisso. Percebendo que estava meio perdido, uma das atendentes me abordou perguntando discretamente qual seria meu interesse específico. Respondi sem pestanejar que estava atrás de algo que não tratasse nem de política nem tampouco de religião. Só queria desopilar. Sem mais perguntas ofereceu-me o livro mais recente do iluminado contador de histórias Rubem Alves: “ostra feliz não faz pérola”. (minúsculo mesmo, igualzinho ao título da capa). Nas quase três horas da viagem de volta, andei folheando a toa e parando lá onde o conto era mais curto e o título mais chamativo. Não tenho autoridade para sentenciar se é livro  de contos ou de parábolas. Faz diferença? Só sei que fui relaxando aos poucos até cair no sono. Não antes, porém, de ler atentamente, apesar do título suspeito,o breve conto que transcrevo sem pedir licença ao autor. Pudera: o preço não foi tão barato.



ALTARES

Fui sabatinado por quatro jornalistas da Folha e por aqueles que estavam no teatro. Dos ouvintes veio-me uma pergunta: “Você acredita em Deus?”. Como a pergunta era vaga perguntei: “Qual Deus?”. A pessoa não entendeu. Expliquei então: “Há muitos deuses, cada um com a cara e o coração daquele que o tem dentro do peito. O Deus de São Francisco não era o Deus de Torquemada, São Francisco usava o fogo do seu Deus para aquecer a alma. Torquemada usava o fogo do seu Deus para churrasquear hereges em fogueiras que eram a diversão do povo”. Como a pessoa não soubesse me esclarecer o assunto, adiantei-me e confessei. “Não sei se acredito em Deus. Mas sei que sou um construtor de altares”. Construo os meus altares com poesia e música. Os altares têm de ser belos. Eu os construo diante de um abismo profundo, escuro e silencioso. Os fogos que neles acendo iluminam o meu rosto e me aquecem. Mas o abismo continua o mesmo: escuro, frio, silencioso.

que espetáculo



terça-feira, 12 de outubro de 2010

perguntas discretas a bispos e padres indiscretos

Onde estavam os senhores quando, em janeiro de 2008, na cerimônia de homenagem aos mortos do Holocausto e de Auschwitz, no Rio e Janeiro, o presidente Lula convocava uma ampla jornada de discussões, debates e seminários para atualizar  o Plano Nacional de Direitos Humanos  de 1996 e ampliado em 2002?
Quem dos senhores se preocupou em conclamar clérigos e fiéis e capacitá-los, em todos os níveis, para serem “fermento na massa”? Foi desinformação? Despreparo ou por causa do pouco tempo que sobra das muitas tarefas pastorais? Medo de misturar as ovelhas de suas igrejas com os lobos da sociedade civil? Talvez as respostas sejam outras.
Com certeza é muito mais fácil e gratificante, agora, alimentar o enraizado sentimento moralista da cultura religiosa e profanar missas e cultos com uma explícita campanha eleitoral sem precedentes. Nem para derrubar os ditadores sanguinários houve tanta ousadia!
Não eram os senhores que, em tempos recentes, faziam questão de definir categoricamente os limites da religião e da política? O que dizer também de tantas acusações contra os poucos bispos, padres, religiosos (as) e leigos (as) que, arriscando suas próprias vidas, assumiam em nome de uma Fé prática aquela opção preferencial pelos pobres que, por ser impregnada de Espírito evangélico não podia ficar nas páginas mortas de tantos documentos que os senhores assinavam. E quantos e quantas aderiram a esta opção com seu próprio sangue!
Convenhamos: a “vida em abundância para todos” exige um compromisso sagrado que, sem negá-las, vai muito além da bandeira que os senhores fazem tanta questão de levantar agora com tanto dogmatismo e moralismo.
Talvez a parábola do Bom Pastor acostumou os senhores a tanger suas ovelhas  com o cajado do poder que o “status” lhes confere para afastá-las dos areópagos onde a Fé é uma opção adulta de mentes críticas e de corações livres.
No final deste desabafo não posso deixar passar batida tanta omissão das dioceses, das paróquias, das pastorais e dos movimentos ao longo da “Campanha Ficha Limpa”. À revelia dos que brindaram orgulhosos os quase dois milhões de assinaturas, de minha parte prefiro esconder a vergonha por tão pouca mobilização católica. Sem falar da última grande omissão por ocasião do recente “Plebiscito Popular Pelo Limite da Propriedade de Terra”.
Perguntar não ofende.

                     

12 de Outubro de 2010
Festa da Padroeira do Brasil

Nossa Senhora de Aparecida, rogai pelo Brasil!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a dilma de frei beto e de tantos brasileiros

"Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes,
em Belo Horizonte. Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência.
Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna
de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere,
participava de orações e comentários do Evangelho. Nada tinha de "marxista
ateia".

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com
violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao
choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos
em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não
passa de campanha difamatória - diria, terrorista - acusar Dilma Rousseff
de "abortista" ou contrária aos princípios evangélicos. Se um ou outro bispo
critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da
verdade.

Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo. Dilma, como Lula, é
pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica. Na linha do que recomenda
Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções
religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que "a árvore se conhece
pelos frutos", como acentua o Evangelho.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na
dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a
fé que abraçam. Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se
eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e
sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto...

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos
miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou
privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente.

Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar
boataria e mentiras. Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo
o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única
linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.

Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que
seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o nome de Deus. Nem
os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da
doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes.

A resposta de Jesus surpreendeu: "Eu tive fome e me destes de comer; tive
sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me
libertastes..." (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais
pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca
saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura
assegurar a todos vida digna e feliz.

Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população
brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita
presidente, prosseguirá na mesma direção".

Frei Beto 
                                                         (artigo publicado na coluna: Tendências/Debates da Folha)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

tudo é política, mas a política não tudo

As diferentes maneiras de contar a mesma história
Se a história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdadeira, como ela seria veiculada pela imprensa brasileira? Recebi e passo adiante.


*Jornal Nacional*

(William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem.'
(Fátima Bernardes): '.mas a atuação de um caçador evitou a tragédia.'

*Programa da Hebe**

".Que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina
linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?"

*Cidade Alerta*

".Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva.
Um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!"

*Globo Repórter*

"Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente?
O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta.
E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.."

*Revista Veja*

"Lula sabia das intenções do Lobo."

*Revista Cláudia*

"Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho."

*Revista Nova*

"Dez maneiras de levar um lobo à loucura, na cama!"

*Revista Isto É*

Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

*Revista Playboy*

(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho no mês seguinte): "Veja o que só o lobo viu."

*Folha de São Paulo*

"Lobo que devorou menina era do MST"

*O Estado de São Paulo*

"Lobo que devorou menina seria filiado ao PT."

*O Globo*

"Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente."

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

marina, marina...cai na real

"Quem estiver oferendo cargo não entendeu nada do que as urnas disseram.As pessoas que votaram na gente têm uma coisa de postura, de valores... Isso deve ser mantido como referencial". Foi a resposta tempestiva e coerente da Marina ao saber da barganha de ontem nos bastidores do Serra e PV. Deixar o PT por não corresponder mais aos sonhos dela, tudo bem. Mas pensar que encontraria na companheirada do PV  pureza de ideais, valores e posturas coerêntes, muito em baixa no PT, é deixar pela metade o conselho de Jesus. Para entrar na política a "simplicidade da pomba" não basta.

uma no cravo, outra na ferradura


Desmonte de uma falácia
                        
                       Artigo do Bispo de Jales Dom Luiz Demétrio Valentini


    A questão do aborto está sendo instrumentalizada para fins eleitorais. Esta situação precisa ser esclarecida e denunciada. 
Está sendo usada uma questão que merece toda a atenção e isenção de ânimo para ser bem situada e assumida com responsabilidade, e que não pode ficar exposta a manobras eleitorais, amparadas em sofismas enganadores.
    Nesta campanha eleitoral está havendo uma dupla falácia, que precisa ser desmontada.
    Em primeiro lugar, se invoca a autoridade da CNBB para posições que não são da entidade, nem contam com o apoio dela, mas se apresentam como se fossem manifestações oficiais da CNBB.
    Em segundo lugar, se invoca uma causa de valor indiscutível e fundamental, como é a questão da vida, e se faz desta causa um instrumento para acusar de abortistas os adversários políticos, que assim passam a ser condenados como se estivessem contra a vida e a favor do aborto.
    Concretamente, para deixar mais clara a falácia, e para urgir o seu desmonte:
    A Presidência do Regional Sul 1 da CNBB incorreu, no mínimo, em sério equívoco quando apoiou a manifestação de comissões diocesanas, que sinalizavam claramente que não era para votar nos candidatos do PT, em especial na candidata Dilma.    
    Ora, os Bispos do Regional já tinham manifestado oficialmente sua posição diante do processo eleitoral. Por que a Presidência do Regional precisava dar apoio a um documento cujo teor evidentemente não correspondia à tradição de imparcialidade da CNBB? Esta atitude da Presidência do Regional Sul 1 compromete a credibilidade da CNBB, se não contar com urgente esclarecimento, que não foi feito ainda, alertando sobre o uso eleitoral que está sendo feito deste documento assinado pelos três bispos da presidência do Regional.   
    Esta falácia ainda está produzindo conseqüências. Pois no próprio dia das eleições foram distribuídos nas igrejas, ao arrepio da Lei Eleitoral, milhares de folhetos com a nota do Regional Sul 1, como se fosse um texto patrocinado pela CNBB Nacional. E enquanto este equívoco não for desfeito, infelizmente a declaração da Presidência do Regional Sul 1 da CNBB continua à disposição da volúpia desonesta de quem a está explorando eleitoralmente. Prova deste fato lamentável é a fartura como está sendo impressa e distribuída.




    Diante da gravidade deste fato, é bem vindo um esclarecedor pronunciamento da Presidência Nacional da CNBB, que honrará a tradição de prudência e de imparcialidade da instituição.
    A outra falácia é mais sutil, e mais perversa. Consiste em arvorar-se em defensores da vida, para acusar de abortistas os adversários políticos, para assim impugná-los como candidatos, alegando que não podem receber o voto dos católicos.
Usam de artifício, para fazerem de uma causa justa o pretexto de propaganda política contra seus adversários, e o que é pior, invocando para isto a fé cristã e a Igreja Católica. 
    Mas esta falácia não pára aí. Existe nela uma clara posição ideológica, traduzida em opção política reacionária. Nunca relacionam o aborto com as políticas sociais que precisam ser empreendidas em favor da vida.
Votam, sem constrangimento, no sistema que produz a morte, e se declaram em favor da vida. 
    Em nome da fé, julgam-se no direito de condenar todos os que discordam de suas opções políticas. Pretendem revestir de honestidade, uma manobra que não consegue esconder seu intento eleitoral.     
Diante desta situação, são importantes, e necessários, os esclarecimentos. Mais importante ainda é a vigilância do eleitor, que tem todo o direito de saber das coisas, também aquelas tramadas com astúcia e malícia.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

devagar com o andor... (pitaco 2)

   "Depois de o presidente nacional do PT supostamenete dizer que a candidata do PV à Presidência havia aceitado conversar sobre o apoio a Dilma , Marina divulgou nota para negar a informação". Deu no jornal O POVO de hoje. Pronto! O resto fica por conta dos "disse-me-disse" que alimentam tempestivamente a rede dos microblogs e Twitter, muitas das vezes, só para entornar o caldo.
   Que o patrimônio eleitoral da Marina desperte a cobiça dos dois candidatos, tudo bem. Cá com os meus botões, prefiro achar que o carisma da Marina é ainda muito frágil para definir a migração de tantos eleitores, seja para que lado for. Nem tampouco penso que a bandeira do desenvolvimento sustentável tenha sido o fiel da balança que determinou a rápida arrancada. Nem Lula, com o seu carisma todo foi capaz de transferir para a Dilma votos suficintes.O buraco está mais embaixo. O recado deste pobre blogueiro é que chegou a hora de deixar de nhenhenhém e partir para uma séria confrontação capaz de marcar a diferença. Ainda sobra eleitor inteligente neste País, salvo aquele milhão e tanto que fazendo chacota dos tiriricas da vida, acabarm debochando do Brasil.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

pitaco por pitaco...lá vai o meu

   À Dilma o que é da Dilma; ao Serra o que é de Serra. Este, cria do FHC, a outra do próprio Lula. Nenhum dos dois com luz própria. O que me deixa perplexo não é isto. É que a enfadonha campanha eleitoral lnão passou de disse-me-disse e os insossos debates midiáticos não passaram da troca de farpas e da mesmice das promessas. Tudo com gosto de “déjà vu” ao longo dos oito anos de um e de outro.
  Difícil para os menos avisados perceber por trás dos principais candidatos a contraposçaõ de projetos de Brasil nitadamente antagônicos, mesmo levando em conta as muitas ambiguidades neoloiberais do governo Lula que não podem minimizar a novidadee das políticas sociais. 
   Nem Dilma nem Serra pareciam interessados em levar a confrontação por esse caminho. Nem tampouco o próprio Plínio, de lucidez impressionante, foi capaz de ir além dos surrados chavões socialistas.
   E a Marina? Sem desmerecer a surpreendente arrancada final com o saldo de quase vinte milhões de votos, ela também com demonstrou pouco cacife para  fazer a diferença  a não ser o contraponto de sua impressionante postura ética e moral. Além do mais, qual é o projeto de Brasil do Partido Verde ?
   Neste vazio de projetos partidários-populares para o Brasil que queremos, sobrou muito fôlego para esquecer o debate político e enveredar pelos caminhos das calúnias sem provas contundentes, dos ataques pessoais destemperados e do fundamentalismo religioso bem ao gosto das novas cristandades. As questões macro da política nacional e internacional foram atropeladas pela inquisição da doutrina moral desta ou daquela igreja. Terreno fértil para todo tipo de moralismo hipócrita e prato cheio para a grande mídia sempre mais hábil no jogo do vale tudo.
Sem isso, estaríamos hoje ensaiando um segundo turno?

   Dizem que o segundo turno é uma nova campanha e uma nova eleição. Fico torcendo desde já. Mas disto vou falar em outro momento.

sábado, 2 de outubro de 2010

... que a dor não me seja indiferente

   Faço questão de esquecer, por hoje, a ecologia, o meio ambiente, os animais e as plantas, mesmo convencido que toda a criação respira o sopro divino do criador e que o cuidado para com ela é imperativo para todos.
   Acho até por demais justo que as religiões e as crenças de todas as matizes enalteçam e enfatizem a atualidade de Francisco de Assis, reconhecendo nele uma das figuras mais eminentes do milênio passado.
   Chora e padece a natureza pelo descaso humano; choram e padecem duras penas multidões de seres humanos, filhos e filhas do bom Deus.
   Por vezes chego até a desconfiar de tanta ternura e compaixão dispensada às plantas e aos bichos enquanto menos comoção e cuidado são dispensada aos bilhões de criaturas humanas largadas ao deus-dará.    Os pobres foram até batizados com o pomposo nome de “hipossuficientes”. Talvez para torná-los ainda mais invisíveis. Sendo assim, menos problemas para nós.
   Penso então em Francisco, o "poverello di Assisi” que chegou a pedir a Deus a sorte de experimentar em suas carnes a mesma dor e o mesmo sofrimento que Jesus provou na cruz. E foi abençoado com as marcas dos estigmas. Masoquismo? Desprezo pelo corpo? Sempre encontrarão justificativas para se safar do sofrimento e da solidariedade aqueles que nada enxergam além das reclamações do seu próprio corpo.
   Francisco percebeu um dia que para “pertencer ao Cristo pobre” não havia outro caminho a não ser a liberdade diante de tudo aquilo que, até então, era a razão do seu viver: as regalias de uma vida burguesa regada a prazeres desmedidos. O emblemático episódio de se despir diante do pai em praça pública, foi só o início do longo e mais difícil processo de despojamento que, partindo da nudez do corpo, atinge as raízes das vontades e das paixões humanas.
   É a pobreza integral, ainda hoje desconcertante e perene desafio diante dos males de todos os tempos. Rico só do amor do Pai, igual ao Mestre, Francisco tem como oferecer amor verdadeiro à toda a criação. A partir daí a sensibilidade deixa de ser mera emoção epidérmica e se torna solidariedade: virtude teologal do novo milênio.
  Virtude teologal bem retratada no abraço de Francisco ao irmão leproso; virtude feita atitude no “bom samaritano” que cuida das feridas do homem caído à beira da estrada; no cuidado e na alegria do pastor bom que carrega nas costas a ovelha machucada; e, por que não, quando Jeová, não aguentando mais tanto sofrimento nas carnes do seu povo oprimido, decidiu tomar partido por ele.
   Aguardando o próximo dia 04, memória de São Francisco de Assis, São Francisco das Chagas para os nordestinos ou São Francisco de Canindé, deixem que eu cante com Beth Carvalho e Mercedes Sosa:

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria
Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente
Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente